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Catástrofe celular pode fazer com que o cancro apareça de repente

Posted by BG em 13/01/2011

Nunca se tinha descrito tal coisa. Um ou dois pedaços de cromossomas de uma célula normal são partidos em pedacinhos. A célula reage e esforça-se para agarrar em todo o ADN perdido, junta-o de volta no cromossoma. Há material que se perde para sempre, outro que fica numa sequência errada, genes partidos ao meio, outros repetidos. A célula resiste, mas a sobrevivência pode acabar por ter um custo enorme a curto prazo para o organismo. Uma equipa descobriu que esta é a causa de uma pequena percentagem dos cancros. O estudo foi publicado ontem na revista Cell.

“Geralmente pensamos nas mutações [de um cancro] como um processo gradual, que vai sendo construído ao longo de muitos anos”, explicou por e-mail ao PÚBLICO Peter Campbell, investigador do Wellcome Trust, em Cambridge, no Reino Unido, e último autor do artigo. “Se num único momento há um dano que causa a mutação de vários genes cancerígenos, então o tempo necessário para o cancro aparecer pode ser encurtado significativamente.”

Fonte: Jornal Público

Quando o diagnóstico do cancro é feito, o problema já ultrapassou o microcosmo da célula. Há um tumor a crescer rapidamente que se rodeou de vasos sanguíneos para se alimentar, e corre-se o risco de algumas células fugirem pelo sangue e implantarem-se noutra região do corpo, propagando o mal.

Mas no início tudo se passa ao nível dos genes. “As mutações nas células vão-se acumulando e há várias receitas com ingredientes diferentes para produzir o cancro, consoante os tecidos”, explicou por telefone ao PÚBLICO o investigador João Ferreira, chefe do grupo de Biologia da Cromatina no Instituto de Medicina Molecular, em Lisboa. Segundo o especialista em biologia molecular e celular, estas mutações “activam genes que promovem o cancro e desactivam outros que protegem do cancro.”

Para João Ferreira, a descoberta de um fenómeno catastrófico que produz rapidamente um cancro “era uma possibilidade que caía dentro dos modelos teóricos.” Mas nunca ninguém tinha observado. E estava posta de lado principalmente por ser difícil imaginar um conjunto de mutações que de uma só vez pusesse em marcha os processos necessários para o desenvolvimento da doença.

A equipa de Campbell mostrou que isto era possível. Observando as mutações de tumores de diferentes tipos de cancro, chegou à conclusão que em certos casos a única explicação possível para estas mutações era terem acontecido de uma só vez. Esta percentagem é na maioria dos cancros de dois a três por cento. No caso do cancro do osso é de 25 por cento.

“O cromossoma é despedaçado em várias centenas de fragmentos numa única catástrofe e muitos genes podem ficar perdidos ou alterados durante o processo”, explicou Campbell.

Ainda não se sabe o que causa o fenómeno. O artigo avança duas possibilidades: radiação e o desgaste dos telómeros – a região final dos cromossomas que mantêm a integridade desta molécula. Por um lado, pode haver pulsos de radiação que acertem em regiões específicas dos cromossomas, danificando-os. Por outro lado, o desgaste dos telómeros nas divisões das células pode fazer colar dois cromossomas. Esta estrutura pode ficar presa numa divisão seguinte e partir.

Novos genes do cancro

Segundo João Ferreira, o que foi observado deverá ser uma pequena percentagem dos casos. Na maioria das vezes, a célula não aguenta a catástrofe e morre. É por isso que o fenómeno é responsável por tão poucos casos de cancro.

Mas como é que as células sobrevivem? “Não sabemos”, responde Campbell. “De alguma forma, a célula consegue escapar ao suicídio e tenta reparar os danos.”

O investigador do IMM aponta ainda que esta poderá ser a razão para a raridade do fenómeno. Na maioria dos casos, os genes necessários para desencadear o cancro estão distribuídos por todos os cromossomas e não concentrados num único local. É neste sentido que João Ferreira antevê as possibilidades desta descoberta. No caso de se desenvolver um cancro “pode-se começar a procurar genes críticos para que aquele caso específico”.

David Campbell vê uma hipótese de evitar a doença: “Se conseguirmos identificar o que causa estes danos, então podemos tentar prevenir que este processo aconteça.”

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