Biologia e Geologia na Escola

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Vulnerabilidade ao vício de drogas começa no feto

Posted by BG em 29/10/2011

Uma equipa de cientistas da Universidade do Minho mostrou que a vulnerabilidade às drogas pode começar durante a gestação, pelo menos em ratos. O estudo, publicado recentemente na revista Molecular Psychiatry, testou um fármaco que imita uma hormona natural associada ao stress e que já foi utilizado em gravidezes prematuras.

“Verificámos que estes ratos tinham alterações comportamentais como hiperactividade e uma propensão para os comportamentos aditivos”, disse ao PÚBLICO Nuno Sousa, médico e professor da Universidade do Minho e coordenador do grupo de Neurociências do Instituto de Investigação de Ciências da Vida e da Saúde, que esteve à frente do estudo.

Durante a gestação destes ratos, os cientistas injectaram um químico artificial chamado dexametasona. Esta substância é da mesma família do cortisol, uma hormona natural que entre várias funções completa o desenvolvimento dos pulmões no feto e é produzida em situações de maior stress.

Fonte: Jornal Público

A dexametasona pode ser utilizada para evitar o perigo das gravidezes muito prematuras, o fármaco acelera o desenvolvimento dos pulmões e evita não só a mortalidade, como evita as doenças dos bebés que nascem com os pulmões pouco desenvolvidos. O grupo de Nuno Sousa já tinha trabalhado com esta substância para perceber que efeitos tinha a longo termo.

Nas experiências comportamentais descritas no artigo, que teve como primeira autora Ana João Rodrigues, a equipa testou a tendência dos ratos para os comportamentos que provocam os vícios, em drogas como o álcool ou a morfina.

A equipa verificou que os ratos que foram submetidos à dexametasona na gravidez tinham mais tendência para escolher o biberão com álcool e água versus um biberão só com água, do que o grupo de ratos controlo. “Escolher beber álcool depende da vontade dos ratos, é mesmo uma coisa motivacional”, referiu o cientista.

Numa outra experiência, em que os ratos podiam escolher entre uma sala onde nada lhes acontecia e outra onde lhes era injectado morfina, os ratos tratados com dexametasona passavam a preferir mais frequentemente a sala onde lhes era injectado a droga.

“Fomos estudar os cérebros destes ratos e vimos que eles tinham falta de dopamina na parte do cérebro que regula o prazer e o valor da recompensa”, disse o cientista. A dopamina está muito associada ao prazer e é também produzida após a ingestão de drogas.

A equipa verificou ainda que nesta região do cérebro dos ratinhos submetidos à dexametasona, as antenas das células que “sentem” a dopamina estavam em muito maior número do que normalmente. Isto porque a dexametasona tinha provocado mudanças no ADN das células que fazia com que elas produzissem um maior número destas antenas.

Este é um exemplo de um fenómeno epigenético, em que o ambiente altera directamente o funcionamento normal dos genes, e que vai influenciar o desenvolvimento, neste caso a propensão para o vício em ratinhos. Segundo Conceição Calhau, investigadora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, estes estudos que mostram a influência directa do ambiente químico no funcionamento do ADN é um tema muito actual. “É uma experiência muito pertinente”, disse a cientista, que não esteve envolvida no estudo mas investiga também esta família de moléculas. A cientista sugere que esta e outras experiências apontam para que “todo o stress que as grávidas podem estar sujeitas, tem impacto no bebé”.

Risco em humanos

Nuno Sousa refere que apesar de no caso da gravidez humana poder haver associado ao stress a produção de cortisol – a molécula natural equivalente à dexametasona –, é muito difícil fazer uma comparação directa, já que a substância produzida pela mãe tem muito mais dificuldade em atravessar a placenta e é degradada pelo bebé muito mais rapidamente.

Em relação ao químico artificial, a presidente da Sociedade Portuguesa de Neonatologia, Almerinda Pereira, refere que a dexametasona deixou de ser utilizada no caso do risco de gravidezes prematuras. “Há mais de dez anos que se deixou de se utilizar a dexametasona e passou-se a utilizar a betametasona, houve um estudo francês em humanos que associou a dexametasona a alguns problemas de desenvolvimento”, disse ao PÚBLICO.

A médica explica que a betametasona, uma molécula da mesma família que a dexametasona, só é usada “em cerca de 80% por cento dos casos” de risco de gravidezes prematuras, que ao todo são menos do que um décimo das gravidezes. “O que temos de ter presente é que estamos a trabalhar com bebés que já são de risco”, sublinhou Almerinda Pereira, acrescentando que é um balanço entre o custo e o benefício. Mas adianta que “toda a nossa evolução baseia-se em estudos e a Sociedade Portuguesa de Neonatologia vai levar em conta este estudo”.

Reabilitação de ratos

Os cientistas tentaram travar nos ratos esta susceptibilidade às drogas. “A vulnerabilidade está no menor nível de dopamina”, disse Nuno Sousa, acrescentando que os ratos tornam-se mais sensíveis aos estímulos químicos, como o álcool ou a morfina, que provocam maior prazer e euforia. O que lhes deixa mais vulneráveis ao vício. “Há uma fase em que se vai à procura do prazer da substância e depois há uma segunda fase que se toma para não se sentir os efeitos da ausência dessa substância e esta é que é a fase do vício”, explicou o cientista.

A equipa utilizou o Levodopa, um fármaco muito utilizado nos doentes de Parkinson, que depois de ingerida se transforma em dopamina. Os resultados foram positivos. “Os níveis de dopamina aumentaram, os receptores [as tais antenas] voltaram a ter os valores normais e as alterações no cérebro desapareceram”, disse o cientista, acrescentando que os ratos deixaram de ter comportamentos associados à vontade de tomar as drogas.

Nuno Sousa defende que a reabilitação através deste método será sempre temporária, mas não rejeita a hipótese de abrir portas para estudos de tratamento de casos de dependência química em humanos. E apesar da experiência ter sido feita em ratos e um paralelo em humanos ser “meramente especulativo”, refere que a experiência “é mais um exemplo da enorme capacidade de adaptação do sistema nervoso” ao ambiente. Neste caso a adaptação é negativa, também existe o oposto, defende o cientista: “Há experiências que mostram que um comportamento mais cuidado da mãe tem um efeito programador muito positivo nas crias.”

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